Quero começar essa carta agradecendo imensamente aos corajosos e corajosas camaradas de luta: trabalhadores, estudantes, comunicadores e, em especial, à - nossa - classe artística. Aos que arriscaram sua imagem, seus cachês, suas publis, suas agendas e suas parcerias para, debaixo de xingamentos e acusações absurdas, defender a democracia, os direitos e a dignidade do povo brasileiro. Isso é grandioso! Parabéns e obrigado a todos e todas por sua coragem.
Tenho meu campo político muito bem definido (graças ao Rap) e, ainda assim, particularmente, não gosto de olhar a política como se olha para o futebol, sob a lógica do “meu time contra seu time” porque, ao contrário do futebol, no ambiente político ambas as “torcidas” são afetadas pelos feitos do vencedor da partida. Mas essa não foi uma partida qualquer, a história e a memória estavam sendo disputadas e, mesmo com a equipe de arbitragem, o VAR, a federação e até mesmo os narradores todos a favor do adversário, nós vencemos.
Essa vitória não foi apenas uma vitória num pleito, foi uma vitória nas redes, uma vitória nas ruas e, para além disso, uma vitória na retomada da narrativa. Essa eleição se encerra com a chama da esquerda muito mais acesa, quente e luminosa. Com uma multidão tomando as ruas e as redes a postos contra a barbárie que a família Bolsonaro representa.
Enfrentamos a interferência internacional, os bilionários de olho grande (pleonasmo?) e gente “poderosa” cheia de razões para tirar o Lula daquela cadeira. Enfrentamos de peito aberto a tal da pós-verdade, onde mentira e fatos pesam exatamente o mesmo na balança de quem não quer ou não pode realizar o “fact checking” da vida real.
Entre o primeiro e o segundo turno, algo diferente aconteceu e o que as redes iniciaram, as ruas passaram a respaldar. E o clima de “já ganhou” do adversário foi o suficiente para começarem a mostrar sua verdadeira face. A resposta veio.
O próprio movimento digital ‘esquerda e direita contra o bolsonarismo’ nasce cercado de dúvidas e chega a esta eleição com seu grande chá revelação: ser de direita e ser bolsonarista não é, necessariamente, a mesma coisa.
Inclusive, aproveito para deixar aqui a minha sugestão (e pedido) para que daqui a quatro anos, os partidos de direita escolham um candidato de verdade, não um fanfarrão funcionário fantasma assentado em cargos públicos há quase 30 anos graças ao sobrenome do pai.
Ninguém na família Bolsonaro tem cancha, bagagem, carisma, liderança e tampouco intelecto para disputar algo com Lula. E as urnas reafirmaram isso.
Preciso também ressaltar a importância e o impacto do Rap neste pleito. Artistas de todos os lugares do país se posicionaram e lutaram por duas causas simultâneas: a primeira foi mostrar que sim, o Rap tem lado; e a segunda era a própria reeleição do único presidente que se sentou para conversar com representantes da nossa cultura.
Atos, posts, músicas e manifestos expressaram todo o repúdio do Rap ao que Flávio representa. Novamente, a rua respaldou. Na própria cidade de São Paulo é possível notar regiões inteiras que mudaram seus votos para Lula nas proximidades de onde ocorreram ações que partiram do Rap contra o retrocesso.
O governo Lula 4 enfrentará sérios desafios, com uma Câmara e Senado majoritariamente de oposição. Mas não nos esqueçamos que a rua, mais do que nunca, está atenta e forte na linha de frente e o próprio resultado da eleição prova isso. Não nos esqueçamos de Jones Manoel, Erika Hilton, Sâmia Bomfim, Guilherme Cortez, Ana Elisa, Pastor Henrique Vieira, Renato Freitas, Elias Jabbour e muitos outros irmãos e irmãs que também estarão ali para reforçar o coro dos interesses do povo trabalhador.