Deixa o tio explicar um negócio, pq pela quantidade de “todo mundo erra”, “ninguém é santo”, “teto de vidro” e “sinalização de virtude” nessa discussão, eu tô começando a achar q a aula de Deontologia Médica foi uma daquelas q mta gente resolveu q dava pra matar sem grandes prejuízos.
O problema é q tão levando isso pra caráter e virtude pessoal. Se o médico é boa pessoa, se qm critica tb já errou, se alguém tá pagando de santo. Só q isso não responde a questão.
O caso é concreto. Um médico, em contexto assistencial, teve acesso ao prontuário de uma paciente em avaliação pra bariátrica, fotografou dados de saúde e levou aquilo pra rede social como conteúdo.
Isso é uma questão deontológica antes de qq coisa. Tem dever q existe justamente pq vc ocupa uma posição profissional específica. O paciente deixa vc acessar o corpo, a história, o prontuário, coisas q ele não entregaria a qq pessoa. E esse acesso tem uma finalidade bem definida, cuidar dele.
Daí vem uma obrigação bastante óbvia. Vc não pode pegar essa posição privilegiada, nem a informação q só chegou até vc por causa dela, e usar pra outra finalidade. O sigilo vem daí. O CEM não inventou isso, ele só colocou no papel um dever q já existe na própria relação médico paciente.
E tb é uma questão regulatória. Não é etiqueta, bom senso ou “seja uma pessoa legal”. Tem norma, tem apuração e pode ter responsabilização. Um pouco menos emocionante q discutir virtude, eu sei.
Por isso “todo médico erra” é verdade e quase inútil aqui. A medicina não tem uma categoria chamada “fez merda”. Errar diagnóstico, errar dose, falhar na comunicação e usar informação de prontuário fora da finalidade assistencial são coisas diferentes. Natureza diferente, contexto diferente, gravidade diferente, resposta diferente.
Dá pra discutir identificabilidade, enquadramento jurídico, gravidade e proporcionalidade da reação. Isso sim é discussão séria. Agora “quem nunca”, “teto de vidro” e “sinalização de virtude” só trocam o assunto.
E isso importa pq medicina depende de confiança. Pcte e família precisam acreditar q aquilo q contam, aquilo q o médico vê e aquilo q fica registrado no prontuário não vai parar depois numa rede social pq alguém achou curioso, engraçado ou digno de comentário.
Por isso acho absolutamente normal a própria categoria cobrar conduta adequada qdo alguém passa desse limite de forma aberta. E aqui eu tô falando da conduta de qm fez a publicação. Quem quer que tenha feito aquilo, teve acesso à informação pq era médico e, junto com esse acesso, vêm deveres específicos.
No fim, pouco importa se é boa pessoa, mau caráter, excelente profissional ou se paga o condomínio em dia. O ponto é a conduta.
Se a gente quer continuar exigindo confiança do público, convém pelo menos demonstrar q sabe o que faz pra merecê la.