🎂 Hoje é aniversário do querido jornalista
@nelsonmotta e para homenageá-lo, trazemos um trecho de um texto que ele escreveu sobre Gal:
“‘Minha cantora’, era como eu atendia aquela voz maravilhosa no telefone ou quando a encontrava, e isso diz quase tudo sobre nós. Que privilégio ouvir sua voz e ser seu amigo desde que ela chegou ao Rio, com 20 anos, como a baianinha “João Gilberto de saias”, e acompanhar sua trajetória gloriosa, seus momentos de sex-symbol rebelde em 1968, mixando bossa nova e Carmen Miranda com Hendrix e Joplin, “Fa-tal” com as pernas morenas entreabertas, “Índia” com os seios de fora, ela era ousada e doce, até gritando era melodiosa, com sua voz de veludo, cristal e labaredas que saía daquela bocona vermelha.
Gal usou seus dons divinos — sua voz e sua musicalidade — para dedicar a vida a construir uma obra monumental, coautoral, com um repertório rigoroso e diversificado, sempre de qualidade à altura da intérprete. Gal não só escolhia com bom gosto e ousadia entre novas versões de clássicos e novidades de alto nível, como o repertório vinha até ela. Que compositor brasileiro não adoraria ser gravado por Gal Costa? E foram muitos que, apaixonados pela voz daquela mulher, lhe dedicaram músicas, como Roberto e Erasmo explícitos com “Meu nome é Gal”, Jorge Benjor com “Que pena”, Tom Jobim, Chico Buarque, Gilberto Gil e muitos outros fãs, mas ninguém fez mais que Caetano para sua voz, sua vida, seus segredos e suas revelações: foi o grande intérprete dos desejos da intérprete.
Em 1988 ela me convidou para dirigi-la em uma turnê internacional que ia de Buenos Aires a 20 cidades do Japão e ao Lincoln Center de Nova York, acompanhada por uma banda espetacular de seis músicos. Nos ensaios, descobri que não havia nada a dirigir: só algumas conversas sobre a playlist, escolhas fáceis em seu repertório vasto e impecável, um ou outro palpite sobre um arranjo, mas sobre canto e interpretação, era só ouvir e aplaudir. Achei que ela estava me levando só como um amigo para fazer companhia rsrs. Sabia tudo a baianinha.” (Nelson Motta, 2022)
Feliz aniversário, Nelsinho!