[Pesquisas eleitorais: o erro se repete. E o método?]
Leia o texto para não ser mais enganado!
Resumo: Os resultados de 2022, 2024 e 2026 reforçam uma discussão que merece mais atenção: como os institutos representam o eleitorado e como o mercado avalia sua precisão. Antes de atribuir desvios ao “voto útil”, precisamos examinar o desenho das amostras, a cobertura regional e o hábito de tratar a média das pesquisas como referência de acerto.
Quem trabalha com pesquisa eleitoral sabe: todos querem acertar. Muitos institutos investem fortemente em estudos e ajustes para aproximar suas estimativas do resultado das urnas. Ainda assim, desde que empreendi nesse setor, em 2022, um comportamento me intriga: o efeito manada dentro da própria indústria.
Ao questionar por que estaríamos errados, ouvi repetidamente que estávamos distantes dos demais institutos — Datafolha, Ipec, MDA, Quaest, Ipespe, entre outros. A justificativa era a divergência em relação à média. Mas consenso entre pesquisas não é garantia de precisão.
Em 2022, nossa última pesquisa antes do primeiro turno ficou próxima das urnas, mesmo com o campo encerrado cinco dias antes da eleição. No tracking, captamos o resultado. No segundo turno, projetamos Jair Bolsonaro 0,3 ponto percentual à frente de Lula, com desvio de 1,2 ponto na diferença entre os candidatos. Fomos classificados como um instituto que “errou”, enquanto outras casas acertaram o vencedor com desvios três vezes maiores. Acertar o vencedor importa, mas não deveria encerrar a avaliação da precisão.
Em 2024, os resultados voltaram a corroborar o método e o desenho amostral, com estimativas muito próximas das urnas em São Paulo e Belo Horizonte.
Agora, em 2026, acompanhei o trabalho mais distante da operação, mas com a mesma expectativa de ver o modelo novamente submetido ao teste das urnas. Os resultados reforçaram minha confiança na capacidade do método de captar o comportamento eleitoral.
A cada ciclo, reaparecem explicações como “voto útil” e “efeito manada” entre eleitores. Esses fenômenos podem existir, mas não dispensam a pergunta central: os métodos utilizados estão representando adequadamente a opinião pública?
A cobertura territorial merece atenção. Nas operações que acompanhei, pesquisas telefônicas alcançavam, em média, cerca de 600 municípios por rodada, enquanto levantamentos domiciliares cobriam aproximadamente 120 a 150. Essa diferença, isoladamente, não determina a qualidade, mas justifica investigar o peso da distribuição geográfica na precisão das estimativas.
Também precisamos discutir a relação entre território e renda. Representar adequadamente capitais, regiões metropolitanas e interiores de todos os estados pode ser decisivo. Pessoas de renda semelhante em São Paulo e Caruaru não necessariamente compartilham as mesmas prioridades políticas. O contexto regional pode explicar diferenças que uma classificação socioeconômica, sozinha, não alcança.
Para meus amigos do mercado financeiro, fica a provocação: no próximo ciclo, a contratação de pesquisas levará em conta o histórico de precisão e os desvios recorrentes ou continuará concentrada nos mesmos nomes? Pagar milhões exige critérios melhores do que reputação e proximidade com o consenso.
Em 2022, contribuí para ampliar a presença de novos institutos competentes. Neste ciclo, avancei em análises que oferecem mais informação do que a contratação isolada de um ou dois trackings. Para 2030, o objetivo é aprimorar esse projeto: mais precisão, mais capacidade analítica e menor custo. Aguardem novidades.
Por fim, os resultados permitem comparar métodos e desempenhos. Minha avaliação é que as pesquisas telefônicas CATI captaram muito bem o resultado, parabéns a Gerp, Veritá e Futura. Entre as pesquisas presenciais domiciliares, a Vox também se destacou. O debate sobre precisão precisa partir dessa comparação e chegar ao método.