🇧🇷✝️ - Onde estão os "pastores" da Igreja Católica?
Padres, bispos, arcebispos, formadores, superiores religiosos, lideranças do laicato: o rebanho não é de vocês. É de Deus. O Espírito Santo os constituiu bispos “para apascentar a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue” (At 20,28).
São Pedro ordena: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado… não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas tornando-vos modelos do rebanho. E, quando aparecer o Supremo Pastor, recebereis a coroa imarcescível da glória” (1 Pd 5,2-4). O Catecismo é seco: o primeiro dever dos bispos, com os presbíteros, é “anunciar o Evangelho de Deus a todos os homens”; eles são “doutores autênticos” da fé, “munidos da autoridade de Cristo” (CIC 888). Lumen Gentium 6 lembra que as ovelhas, embora governadas por pastores humanos, são conduzidas pelo próprio Cristo. Quem ouve o bispo fiel ouve a Cristo; quem o silêncio do bispo substitui pela carta do partido ouve outro senhor.
No cristianismo, a importância do pastor não é metáfora de gabinete. A ovelha não distingue sozinha o caminho seguro da planta venenosa. Depende da visão de quem vai à frente. O Bom Pastor conhece as ovelhas pelo nome, vai adiante delas, dá a vida, resgata a perdida e não foge quando aparece o lobo (Jo 10,11-15). O mercenário foge porque as ovelhas não lhe pertencem. Ezequiel já tinha pronunciado o ai: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos!… Não fortalecestes as fracas, não curastes as doentes, não ligastes as feridas, não reconduzistes as desgarradas, não buscastes as perdidas” (Ez 34,2-4). Sem pastor, o rebanho vira pasto de feras. Sem doutrina inteira, o fiel vira pasto de palanque.
Heródoto ensinou o ofício mais simples e mais raro da política: conhecer o passado para entender o presente e planejar o futuro sem repetir os mesmos erros. Um povo que apaga a própria origem não fica livre. Fica desorientado.
O Brasil deve muito à Igreja Católica — e, de modo especial, aos jesuítas. Em 1549, com Tomé de Sousa, desembarcaram Manuel da Nóbrega e os primeiros inacianos. Quinze dias depois já havia escola de ler e escrever na Bahia. Em 1554, no planalto de Piratininga, o Colégio de São Paulo dava nome e eixo a uma cidade. Nóbrega e Anchieta estiveram na raiz de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Anchieta aprendeu o tupi, escreveu gramática, catecismo e teatro. Antes de haver Ministério da Educação, havia o colégio, a aldeia, a carta ao provincial. Até a expulsão pombalina de 1759, a Companhia sustentou a espinha do ensino colonial. Expulsar quem alfabetizava e catequizava não foi progresso. Foi um erro cujo vazio o Estado nunca preencheu por inteiro.
A dívida não se resume à aula. As Santas Casas nasceram quando hospital ainda era obra de misericórdia. A Igreja batizou, registrou, enterrou e deu calendário à nação. Houve pecado no encontro colonial. Quem ama a verdade não precisa de hagiografia. Precisa de proporção. O mesmo cristianismo produziu a denúncia de Vieira, a ideia de pessoa que não pode ser tratada como coisa, e a rede de escolas, enfermarias e irmandades que antecedeu o Estado social.
Essa história tem nome e rosto. Nossa Senhora é padroeira do Brasil. A imagem negra pescada no Paraíba do Sul em 1717 tornou-se o sinal mais popular da fé nacional. Pio X autorizou a coroação em 1904. Pio XI, em 1930, proclamou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Rainha e Padroeira principal da nação; a cerimônia solene, em 31 de maio de 1931, no Rio, leu o decreto diante de uma multidão. Não foi enfeite de sacristia. Foi o reconhecimento de que este povo já tinha Mãe antes de ter República laica. O Brasil foi consagrado a Maria.
Em 12 de agosto de 2025, no plenário da Câmara, o Brasil foi consagrado também ao Arcanjo São Miguel. A imagem peregrina vinda do Monte Gargano foi coroada por Dom Devair Araújo da Fonseca como “comandante espiritual da nação, defensor de nossas famílias, guardião de nossa liberdade, escudo contra as trevas e patrono do Brasil fiel”. Depois veio a lei que fixou o 29 de setembro no calendário nacional. O Catecismo lembra que São Miguel ajuda a Igreja no combate contra as forças do mal (CIC 335). Que o Congresso tenha aberto a porta para esse ato não transforma o Estado em teocracia. Mostra que a batalha espiritual por trás da batalha política deixou de ser assunto de nicho. Rejeitar Maria e Miguel não moderniza o cristianismo. Enfraquece a frente que a própria história brasileira já reconheceu.
Essa memória importa agora, porque o presente finge que a nação é um recinto vazio. O Estado é laico. Não tem religião oficial, não impõe culto, não pode perseguir crença nem descrença. Laicidade, porém, não é laicismo. O Estado é instrumento. A sociedade é o povo que o institui — e esse povo continua, em sua imensa maioria, cristão. Católicos recuaram, evangélicos avançaram, cresceu quem se declara sem religião. Mesmo assim, o Brasil não se tornou laboratório neutro. Continua um país de cruz, de missa, de Aparecida e de São Miguel. O Ocidente não nasceu de um decreto: nasceu de Grécia, Roma e da antropologia cristã — a pessoa como imagem de Deus, anterior ao César; a família como célula da sociedade; a lei natural como critério que o legislador reconhece. O preâmbulo de 1988 foi promulgado “sob a proteção de Deus”. Feriados, dignidade da pessoa humana e liberdade religiosa não são acidentes.
Por isso “Estado laico” vira trapaça quando expulsa a fé da praça e conserva na praça só a ideologia. Toda lei parte de uma ideia de homem. Ou a pessoa limita o poder, ou o poder define a pessoa. O cristianismo afirma a primeira. O socialismo, o comunismo e, na raiz antropológica examinada por Pio XI, também o socialismo mitigado (a chamada "social-democracia") — aquele que troca a revolução pela urna sem corrigir a concepção de homem e de sociedade — afirmam a segunda. Quadragesimo Anno §120 é explícito: ninguém pode ser, ao mesmo tempo, bom católico e verdadeiro socialista.
O Papa analisou justamente a versão que recusava a violência e ainda assim a julgou incompatível, porque ordena a pessoa ao coletivo e ignora seu fim transcendente. O Catecismo, no §2425, rejeita as ideologias totalitárias e ateias associadas ao comunismo ou ao socialismo — e, no mesmo parágrafo, recusa também o capitalismo que faz do mercado norma absoluta sobre o trabalho humano. A doutrina social não é capelania da esquerda nem da direita. É outra antropologia. Subsidiariedade e solidariedade juntas. Pessoa que não é célula do Estado nem átomo sem dever.
É nesse chão que a carta dos “católicas e católicos do PT” se torna reveladora. Fala em nome da fé e recorta a fé. Abre com João 10,10 e fica só com a “vida em abundância”. O versículo inteiro começa pelo ladrão que vem para roubar, matar e destruir. Denuncia quem transforma igreja em palanque — de dentro de um palanque partidário, pedindo voto. Não cita bispo, Catecismo, aborto. Disseram que o tema “não é prioridade”. Para a Igreja, a vida do nascituro não é pauta. É doutrina definitiva (CIC 2270-2273; Evangelium Vitae).
O estatuto do PT declara o objetivo de construir o socialismo e exige adesão do filiado. Libertatis Nuntius (1984) condenou o uso da fé católica como instrumento de projeto político marxista. Nada disso foi revogado.
A prática confirma o recorte. Em 2022, carta aos evangélicos: o presidente se dizia contra o aborto e remetia o tema ao Congresso. No primeiro mês de 2023, saída do Consenso de Genebra e revogação de regras que dificultavam o aborto legal. A CNBB reprovou. Depois voltou a falar. O problema não é ausência total de notas. É a desproporção: voz alta contra a fome, voz baixa contra a ideologia que redefine o homem.
Em 2026, a mensagem eleitoral da conferência falou de corrupção, desigualdade e pontes. Alguns regionais defenderam a vida desde a concepção. O tom nacional preferiu não ferir ninguém — e, por isso, não protegeu o essencial. Enquanto isso, o presidente que se diz católico diagnosticou a crise da Igreja pelo celibato e pela ausência de mulheres padre. Comparou sacramento com “vantagem” de outra denominação.
A Igreja não é a CNBB. A Igreja é o Credo, os sacramentos, o magistério, a paróquia que ainda ensina o Decálogo, o bispo que fala, o leigo que recusa ser massa de manobra. Confundir timidez episcopal com silêncio de Cristo é erro teológico. Cobrar o pastor não é. Se a política é forma elevada de caridade, caridade não é omissão.
O esvaziamento dos templos não veio só do mundo. Veio também de uma pastoral que trocou pecado e graça por militância; de uma teologia que fez do Evangelho um programa; de um laicato treinado para ter “consciência crítica” só contra o adversário. A carta petista é o fruto: celebra a teologia da libertação, pede voto e chama isso de fé.
O cristão tem o dever de ser sal e luz. “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insípido, com que se há de salgá-lo? Para nada mais presta senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte” (Mt 5,13-14). O Catecismo retoma: a missão do povo de Deus é ser sal da terra e luz do mundo (CIC 782). O sal preserva o que apodrece. A luz torna visível o que se quer esconder. Fé de fachada — Missa no domingo, silêncio na urna, carta partidária no lugar do magistério — é sal sem sabor. Jesus não pediu equilíbrio entre o altar e o lobo. Pediu testemunho. Tiago é seco: fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). O Concílio chamou a ruptura entre fé professada e vida prática de um dos erros mais graves do mundo moderno (Gaudium et Spes 43). Apocalipse 3,15-16 reserva à igreja morna o juízo mais duro: nem quente nem frio.
Heródoto caberia aqui como exame de consciência nacional. Quem esquece Nóbrega e Anchieta aceita que a escola tenha nascido do Estado. Quem esquece a Santa Casa aceita que a caridade tenha nascido do ministério. Quem esquece Aparecida e São Miguel aceita que a nação seja órfã por decreto. Quem esquece Pio XI aceita que socialismo e Missa sejam o mesmo amor aos pobres com roupas diferentes. Quem esquece João 10,10 inteiro aceita a abundância sem o ladrão. O passado não pede volta à colônia. Pede memória suficiente para não entregar o futuro à mesma recusa da pessoa concreta — agora com linguagem de direitos e carta em papel timbrado.
Padres, bispos, arcebispos, lideranças católicas: onde está o pastor?
O rebanho pergunta porque sente o gosto da planta venenosa e não ouve o cajado. Não se pede que indiquem candidato. Pede-se que ensinem o que já está escrito. Que leiam João 10 inteiro no púlpito, não só a metade doce. Que citem Quadragesimo Anno com a mesma frequência com que citam a desigualdade. Que chamem o aborto pelo nome que o Catecismo lhe dá. Que não deixem o setorial do partido fazer as vezes de doutor da fé. Que não confundam prudência com mornidão, nem diálogo com entrega do redil. Ezequiel não ameaça o lobo primeiro. Ameaça o pastor que se apascenta a si mesmo. Atos 20 avisa: virão lobos vorazes, e de entre vós mesmos se levantarão homens que arrastarão os discípulos. O mercenário vê o lobo e foge. O Bom Pastor põe o corpo.
Onde está a Igreja Católica? Está no versículo inteiro. Está no colégio de Piratininga, no manto de Aparecida, na consagração a Miguel e no parágrafo 2425. Está na recusa de ser capelania de governo. Está no povo que ainda é cristão, mesmo quando a elite prefere que ele se envergonhe disso. Está no leigo que lê o estatuto do partido e a encíclica do papa e conclui que não se serve a dois senhores. Está — ou deveria estar — na boca de quem recebeu o óleo e o cajado.
O Brasil pode ser laico sem ser amnésico. Pode garantir o direito do ateu sem tratar o cristão como intruso na casa que a própria cruz ajudou a erguer — casa já entregue à Mãe e ao príncipe da milícia celeste.
O que o fiel pede não é bispo-candidato. É bispo-doutor. É padre que salgue. É luz no velador, não debaixo do alqueire. Se o sal perder o sabor, não serve para mais nada. Se a hierarquia não disser o que a Igreja já escreveu, o partido dirá no lugar dela. E dirá pela metade. Então o Supremo Pastor pedirá contas — não ao lobo somente, mas ao sentinela que viu e calou.