"A realidade concreta é mais complexa que formulações abstratas"
"Pessoas reais em contextos reais"
Por que a norma criacional é tida por formulação abstrata enquanto a identidade autoatribuída do homem é tida por mais concreta e real?
Quantos precedentes essa lógica abre?
Fui questionado pelo uso de pronomes femininos ao me referir a Érika Hilton, uma mulher trans. Respondi de forma simples: uso porque Érika é um nome feminino. Se alguém considera problemático o pronome, deveria considerar ainda mais problemático o próprio nome, que é um substantivo próprio feminino.
A pergunta seguinte foi mais direta: há problema em um homem querer ser chamado por um nome e por pronomes femininos? Ciente do que ele queria mesmo saber, já fui direto ao ponto. Não vejo problema em tratar as pessoas pelos seus nomes sociais, nem em usar os pronomes correspondentes a esses nomes.
Creio que Deus criou homem e mulher. Essa é a estrutura normativa da criação. Existem, contudo, situações excepcionais, como anomalias sexuais, que não alteram a regra, mas mostram que a realidade concreta pode ser mais complexa do que uma formulação abstrata.
Reconheço também que há casos de disforia de gênero, ainda que raros. Não tenho domínio técnico suficiente para tratar dessa condição em profundidade, e por isso evito simplificações indevidas sobre algo que envolve dimensões biológicas, psicológicas e existenciais.
Dito isso, não entendo que esse tipo de respeito, ou seja, tratar alguém pelo nome social e pelos pronomes que utiliza, represente uma afronta à fé cristã. Pelo contrário, vejo nisso uma postura que pode abrir espaço para acolhimento genuíno, diálogo honesto e, eventualmente, testemunho e evangelização.
Não se trata de negar convicções. Trata-se de saber como se portar diante de pessoas reais, em contextos reais, com graça e verdade.