Uma carta aberta ao
@RenanSantosMBL.
Renan, você parece um cara com quem eu tomaria uma cerveja tranquilamente, apesar de ter me bloqueado depois das minhas piadas com o psol gamer.
Acho que você tem ideias boas e outras muito ruins. Velho que sou, já votei em direita, esquerda, centro e ponta-cabeça. Com o tempo, aprendi a reconhecer medidas positivas e negativas em políticos de ideologias diferentes. Foi um jeito de sobreviver à política brasileira sem enlouquecer.
Mas mantenho alguns princípios humanistas como condição mínima para votar em alguém. Liberdade, cidadania, direitos humanos e proteção básica para quem precisa não são negociáveis, independentemente do candidato. E isso vale para o voto que darei em alguns dias.
Há propostas econômicas no seu programa que, inclusive, eu esperaria também de uma esquerda liberal moderna: investimento público em infraestrutura, desenvolvimento industrial e tecnológico, modernização do SUS e combate a privilégios, porém aliado a inovação, investimento estrangeiro, com uma combinação entre Estado e mercado. Vejo muito valor nisso, e confesso que gostaria de ver uma esquerda mais moderna e à vontade para discutir justamente esses tópicos sem os espantalhos de uma velha esquerda ultrapassada que parece interpretar o presente como se estivesse na Guerra Fria. Reconhecer convergências me parece mais útil do que rejeitar uma proposta por causa de quem a apresentou.
Neste pós-eleição, algumas das suas falas me pareceram mais abertas à reflexão. Sei que sua crítica ao bolsonarismo vem de antes. Ainda assim, vi gente de direita e de esquerda reconhecendo valor nas suas posições. E achei o vídeo do “travesti hipotético” muito bom. E não só eu. Essa crítica à política que mobiliza medos imaginários enquanto problemas reais continuam sem solução é extremamente necessária. E esse fenômeno não se restringe a direita. A esquerda está cheia dos seus “travestis hipotéticos” e dos seus medos irracionais, é só ver o alarmismo das últimas horas.
Gostaria, porém, de ver essa reflexão aplicada às pautas e à comunicação que você e o MBL ajudaram a construir. Vocês também alimentaram disputas culturais que transformam minorias em alvos e afastaram pessoas que poderiam concordar com parte das suas propostas, como eu. Para mim, levar a liberdade a sério inclui defender que alguém possa viver fora do padrão sem ter sua dignidade e seus direitos permanentemente colocados em disputa.
Como dirigente, você tem responsabilidade por isso. A militância que o cerca também foi formada e mobilizada pelo próprio movimento. Rever esse caminho exige estabelecer limites para o que vocês incentivam.
Diante de propostas de restrição de direitos, é fundamental que existam garantias que impessam acusações falsas, prisões arbitrárias e abusos. O Estado também erra e pode ser capturado por interesses criminosos, interesses escusos. Dar mais poder a ele exige controles à altura. E eu, particularmente, sempre sinto um arrepio na espinha quando vejo o Estado, de alguma forma, muito poderoso, o autoritarismo me repele, e você ofereceu uma dose relevante dele. Garantias processuais e civilizatórias precisam valer justamente quando há pressão para ignorá-las. Qualquer pessoa pode precisar delas, inclusive quem hoje acredita estar completamente a salvo. Incluindo eu, ou mesmo, você.
Acho que faria bem a você desradicalizar o discurso, rever algumas posições e, principalmente, desarmar a sua militância. Talvez isso custe apoio entre os mais aguerridos, mas também possa abrir uma conversa com quem hoje não se sente representado por vocês. Não sei quantos votos isso renderia, e não vou fingir que sei. Mas posso falar por mim, consigo reconhecer muitas boas ideias vindas de você e, ao mesmo tempo, considerar outras posições tão impeditivas que me fizeram sequer considerar votar em você, e sei que ao meu redor, existem muitas outras pessoas assim. Você parece um cara legal, desejo sorte e sabedoria a você.