O ANTIPETISMO VENCEU O PRIMEIRO TURNO, MAS A ARROGÂNCIA BOLSONARISTA REELEGEU LULA
A eleição presidencial de 2026 deixou uma mensagem que o PT não deveria ignorar e que o bolsonarismo provavelmente terá dificuldades para compreender. O antipetismo continua sendo uma das maiores forças políticas do país, mas a rejeição à família Bolsonaro demonstrou, pela segunda eleição consecutiva, ser capaz de decidir uma disputa presidencial.
Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno mesmo enfrentando um presidente que controlava a máquina federal. Seu desempenho revelou a dimensão da insatisfação com Lula e mostrou que milhões de brasileiros estavam dispostos a apostar em uma mudança de governo. Entretanto, três semanas depois, o candidato que parecia favorito acabou derrotado por uma reação que sua própria campanha ajudou a provocar.
Durante boa parte do primeiro turno, Flávio procurou apresentar uma imagem mais moderada que a de seu pai. Buscou dialogar com setores da direita tradicional, suavizou o discurso e tentou convencer o eleitorado de que poderia representar uma alternativa conservadora sem reproduzir os excessos do bolsonarismo.
A vitória parcial nas urnas, porém, parece ter produzido o efeito contrário ao esperado. O segundo turno começou sob um clima de arrogância e vitória antecipada. Antes mesmo de conquistar a Presidência, Flávio já falava em utilizar a nova composição do Congresso para eleger os presidentes da Câmara e do Senado, mudar a Constituição e, em suas próprias palavras, "redemocratizar o país".
A declaração foi especialmente desastrosa porque trouxe de volta justamente o temor que seu esforço de moderação procurava afastar. O filho de um ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado anunciava mudanças constitucionais em nome de uma suposta redemocratização. Ainda que posteriormente tenha procurado esclarecer suas intenções, o estrago político estava feito.
A postura de seus aliados agravou o problema. Nikolas Ferreira, ao produzir um vídeo sobre o Nordeste marcado por uma representação caricatural da região, reforçou a percepção de desprezo por eleitores que o bolsonarismo precisava conquistar. Pablo Marçal, por sua vez, preferiu hostilizar Renan Santos e menosprezar seus eleitores, justamente uma parcela da direita que poderia ampliar a votação de Flávio.
A campanha parecia acreditar que o eleitor antipetista tinha obrigação de votar no candidato do PL, independentemente da maneira como fosse tratado. Esqueceu que existe uma direita brasileira que rejeita Lula, mas também não aceita ser subordinada politicamente à família Bolsonaro.
Esse foi, possivelmente, o maior erro do segundo turno. Flávio precisava conquistar os eleitores que não haviam votado nele, mas seus aliados agiram como se a eleição já estivesse decidida e como se qualquer resistência ao bolsonarismo representasse uma traição.
Enquanto isso, Lula e sua militância compreenderam o que estava em jogo. A campanha petista recuperou as ruas, reorganizou sua comunicação digital e transformou a rejeição ao bolsonarismo em uma poderosa força de mobilização.
O resultado foi uma inversão da lógica que havia dominado o primeiro turno. Se antes milhões de brasileiros votaram em Flávio principalmente para derrotar o PT, no segundo turno outros milhões escolheram Lula para impedir o retorno dos Bolsonaro ao poder.
Entre eles estavam eleitores antipetistas, conservadores e pessoas que jamais haviam votado no PT, mas que, diante das duas alternativas, consideraram Flávio Bolsonaro um mal ainda maior. Não significa que tenham passado a aprovar Lula ou seu governo. Significa que a rejeição ao bolsonarismo foi mais determinante do que suas próprias resistências históricas ao petismo.
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