O Fortaleza Esporte Clube criou sua SAF e agora vai vender para... ninguém.
Nem pretende. Vai ser uma SAF 100% do clube e eles estão bem satisfeitos e seguros quanto a isso.
Diferente do que foi pensando lá atrás, o clube não tem mais a pretensão (ao menos nos próximos anos) de buscar um investidor minoritário - alguém que tope comprar algo como 20% e não assuma o controle.
A ideia do clube hoje é aproveitar a estrutura da SAF para viabilizar acesso a crédito. Uma aposta coerente porque torna mais fácil (e barato) solicitar um empréstimo quando você tem o próprio capital da SAF como garantia.
Como assim?
Bem gerido e com pouca dívida, o Fortaleza até tem reputação para ir ao mercado, mas não conta com muita boa vontade pelo histórico de calotes e alto endividamento dos clubes brasileiros. Muitas instituições financeiras evitam emprestar dinheiro para associações civis.
Com uma SAF controlando os ativos do futebol, a própria "empresa" passa a ser um ativo de interesse para quem pode emprestar dinheiro. Lá estarão os direitos econômicos dos jogadores, os contratos comerciais, o plano de sócio-torcedor e a bilheteria, os direitos de transmissão e o que mais o Fortaleza elaborar.
Um empréstimo que se torne, por alguma razão, uma dívida impagável poderá se ser resolvido com o repasse de parte do capital da SAF do clube. Isso dá segurança pro emprestador e viabiliza recursos para o clube.
Por exemplo
Digamos que o FEC vá um banco e solicite 100 milhões de reais para a construção de um novo CT e novas instalações da base.
Colocando (hipotéticos) 20% da SAF como garantia para essa dívida, o clube consegue convencer o banco de que o negócio é seguro e não haverá calote. Os juros tendem a ser mais baixos, os prazos mais largos, etc.
Ao menos é essa a perspectiva do clube e, de certa forma, faz todo sentido em se tratando de uma associação pacificada e organizada como é o Fortaleza.
Já de olho no futuro
Mas a parte mais madura e inteligente da SAF do Fortaleza está na projeção para o futuro. Como associações podem mudar de cabeça muito rapidamente, o clube elaborou um estatuto que já REGULA a possível discussão da venda da SAF.
O mais interessante: o Fortaleza já sabe como será o quórum para a venda da minoria e para a venda da maioria (perda de controle da SAF).
Para vender uma parte minoritária do clube (até 49,9%), a Assembleia Geral do clube deverá ter ao menos 3/4 dos votos favoráveis.
Exemplo: caso 4 mil sócios compareçam, pelo menos 3 mil terão que votar pelo "SIM".
Para vender a maioria das ações (50% ou mais) com perda do controle da SAF, a Assembleia Geral deverá contar com um mínimo de 50% dos sócios aptos do clube. Desse colegiado, ao menos 85% dos votos terão que ser favoráveis.
Exemplo: caso o FEC tenha 4 mil sócios aptos, a Assembleia Geral só será válida com o comparecimento de 2 mil sócios. Desse conjunto, ao menos 1.700 sócios terão que votar "SIM".
O Fortaleza elaborou uma barreira extremamente alta para evitar aventurismos no assunto "venda da SAF".
A SAF "tabu"
Em resumo: o Fortaleza ensinou que é possível pensar a SAF como um instrumento, um meio, não um fim. Esse assunto era praticamente um tabu dentro do raso debate estabelecido sobre as SAFs nos últimos anos.
Mais uma aula do clube ALENCARINO, um case que merecia maior reconhecimento e respeito do conjunto dos atores do futebol brasileiro.
O Fortaleza elabora uma alternativa complexa, se mantém dono do próprio nariz e viabiliza um salto espetacular para o futuro.
Mas lembrem: futebol é extremamente cíclico e nem sempre o resultado dentro de campo reflete o que é feito fora dele.
Sorte ao Fortaleza Esporte Clube.
📸Lucas Emanuel/CBF