O licorne se defende
Escornado jaz o cão, perto demais
do licorne a que afoito dava caça.
Cuidava serem ele e a fera iguais:
O chifre que o corrige o trespassa.
Defende-se o licorne, numa dança
Despreocupada e alegre de acrobata.
E nem percebe sangue, cães, matança;
Como quem brinca fere, aleija e mata.
O cão agora paga a ousadia
de tentar se aproximar da altiva fera.
O antigo ardor se apaga em agonia,
o ímpeto frustrado o dilacera.
Então, no fim amargo da caçada,
Prostrado em meio à relva revolvida
somente espera a dolorosa morte.
Com o que sobrou de amor lambe a ferida;
consola-se, fingindo que a pancada
Ainda é uma carícia — só mais forte.