Samuel Pessôa escreveu hoje na Folha algo que deveria estar no centro do debate e não está. A conta é simples e feia.
Nos quatro anos do Lula 3, a dívida pública cresceu uns 2,8% do PIB por ano. Nos próximos quatro, se o próximo governo só cumprir o arcabouço e mais nada, isso passa de 4% do PIB por ano. Seja Lula, seja Flávio, seja quem for.
O motivo é triplo. Primeiro, a dívida vai fechar 2026 uns 12 pontos do PIB acima de 2022, então o juro incide sobre uma base maior. Segundo, muita dívida foi contratada na pandemia com Selic lá embaixo, venceu e foi rolada agora com Selic lá em cima. Ficou mais cara. Terceiro, o crescimento vai desacelerar. Os economistas erraram feio o PIB de 22 a 25 (errou pra cima, tudo bem), mas o crescimento veio de ocupar gente parada, não de produtividade. Desemprego caiu de 8,5% pra 5,5% e não vai cair pra 2,5%. Se anything, sobe um pouco. Acabou o combustível.
Dívida maior, mais cara, economia crescendo menos. Não tem mágica.
Salto e Pellegrini propuseram no Estadão um ajuste de 2% do PIB de superávit primário em quatro anos: um terço via receita (corte linear de 23,5% nos gastos tributários, tipo aquele desconto ilimitado de saúde no IR), dois terços via gasto (desvincular o piso da previdência e dos benefícios sociais do salário mínimo, e indexar os pisos de saúde e educação pelo mesmo índice do arcabouço).
E aqui o ponto que a maioria ignora: não adianta fazer 2% de primário se o gasto obrigatório continuar crescendo acima do PIB potencial. Enquanto isso acontecer, o governo joga demanda na economia mais rápido do que ela consegue produzir, o juro real não cai, e sem juro real caindo a dívida não cai. Nem com superávit.
A uma semana da eleição, a gente está discutindo Banco Master, STF e qual candidato reza melhor pra padroeira. O conflito distributivo real está no Tesouro. E ninguém quer tocar nele.