A primeira vez que me relacionei com um site de apostas foi em 2008, levado por um amigo para narrar jogos, pelo telefone, para sites asiáticos, agilizando assim a atualização das partidas no site, sem delay. A ideia do site em si era uma abstração sobre a qual não me detinha. Ganhava em Euros. Minha mancha de cobertura era o interior de SP. Conheci muitos estádios. Era moleque, gostava daquelas horas de estrada. Os Euros pagavam o ônibus, o ingresso, o rango e ainda sobrava um pouco. Dormi muito em rodoviária nestes tempos. Três anos antes disso o campeonato brasileiro teve jogos anulados por escândalo com apostas.
Uns dez anos depois desse meu bico, pedi ao meu amigo Bruno que me ensinasse a ler as odds. Para mim, "4.11" e "2.04" não significavam nada. Não sabia interpretar quem era o favorito. Era simples, e tudo que o Bruno me explica vira doce e simples. Lembro disso, mas não começou ali. Começou em 2022. Foi em Brasil x Sérvia, pela Copa do Mundo. Apostei 100 Reais. Não dei muita bola para a coisa, não achei graça, mas a conta estava feita. O pós-pandemia, a vida que o destino me impôs, qualquer outro fator, não importa: a conta estava feita, e um dia pediria o seu espaço.
Em 2023 ela foi uma figurante. Em 2024, não. Posso te dizer que o estado de saúde, repentinamente diagnosticada e já grave, de minha tia, ou que minhas mudanças e expectativas (inclusive as positivas) de vida nova, tomam alguma parte da história, posso pegar a culpa toda e me carimbar como estúpido, mas a culpa essencialmente é da publicidade alucinante, da plataforma infalível, da sedução calculada secular destes lugares, físicos ou virtuais. A vida de quem cai nessa envolve tentar lembrar todo dia que perdemos para uma máquina do tamanho de um prédio de mil andares, não para nossa humilde imperfeição apenas. Perdi, como muitos. Muito mais do que dinheiro.
Meu pai, em 1984, também perdeu. Para outra dependência, a química. Deixou de me criar, morou na rua por mais de dez anos, sumiu de sua própria vida, morreu. Quantos de nós ainda deixaremos de criar, ou de ter, um filho, uma vida mais feliz, por causa de algum vício? Sim, eles nunca acabarão. Tenho tatuagens de Maradona e Amy Winehouse. A dupla têm algo em comum e eles me tocam, suponho, também por isso. Talvez meu pai tenha, ao cair de onde caiu, me ensinado a ter empatia por estas pessoas quebradas. Por um ano e pouco frequentei assiduamente os Jogadores Anônimos em algumas cidades. Carrego cada relato com respeito e amor. Por ética, não posso contar nada sobre nenhum, mas te convido a pensar neles.
Há 19 meses e 12 dias venço as apostas ao não procurá-las. Por ironia e benção, o tema não saiu de pauta para mim no emprego que me coube. As dívidas estão diminuindo, nenhuma é com o banco. Coisas minhas, não importa a ninguém, não é uma vergonha em si. As outras coisas que perdi, o tempo inclusive, não posso recuperar, faça o que fizer. Não foram poucas. Me expus e me exponho. Meu sobrenome é "Iamin", não é "Aquele que teve problema com bets". Não temo o estigma. Depois do tanto de vida e amor que perdi, não temo quase nada. Isso me faz mais um indiferente, ou um anestesiado, do que propriamente um destemido. Um anestesiado que não se omite. Cujo trabalho já teve o patrocínio de uma delas, uma cagada, mas que vai ficar sempre neste lugar: patrocínio, não coleira. Não me domestica a palavra, porque tampouco temo a suposta contradição e o clamor por uma coerência que seria, na verdade, além de compromisso com o erro, uma covardia. Sou um adicto de apostas esportivas, vencendo há 19 meses. Não um covarde.
É impossível ser mais claro o tipo de consórcio de perversões e crimes que compõem este mercado. O universo das bets, em especial o cassino de algoritmo, é o encontro de quase todas as tragédias sociais possíveis. É a delinquência absoluta de gestos e atuações, sejam publicitárias, sejam fiscais. A maior fuga de capital da história deste país. A lavanderia de dinheiro mais clamorosa e fácil que já existiu. Foram dias cansativos, porque falar do tema, ver o tema em todo lugar, faz o cérebro lembrar de dias em que sofreu. Quem conhece o vício, a ressaca, a abstinência, respeita. Em 2008 eu falava "home team, danger area" ao telefone para um chinês atualizar um site onde alguém, do outro lado do mundo, colocava dinheiro à espera de um gol do Mogi-Mirim contra o Araçatuba. Hoje eu falo com quem quiser falar: as bets, pela forma como foram concebidas e hipertrofiadas no Brasil, não são compatíveis com uma sociedade minimamente funcional.
Se tivessem sido alimentadas, desde o começo, com menos delinquência, ganância, cinismo, com menos Virgínias e Carlinhos, talvez houvesse um caminho. Se a recente CPI tivesse sido séria, e não sabotada pelo lobby das apostas, também talvez. Mas elas construíram um império da canalhice, se cercaram dos marginais mais inclassificáveis disponíveis no mercado influencer, estruturaram tudo para depender delas de alguma forma, anunciaram o banditismo de suas contabilidades com clareza suficiente até para um grande avoado notar algo errado, e se tornaram essa coisa sem solução. Sem solução, porque é só problema, da cabeça aos pés, do corpo até a alma.
Tempo demais sendo gasto com esta gente. Quero olhar para quem sofre de verdade e foi esmagado por algo que saiu de controle. Minha DM é aberta. Meu whatsapp prioriza estes. Eu sou amigo de qualquer pessoa que sofreu com isso, e vou usar, para sempre, a voz que eu tiver para falar sobre esta gente. Os clubes de futebol e os marmanjos da retórica do "veja bem" eu deixo no fim da fila.