Caro João, a política exige uma análise um pouco mais cuidadosa do que essa comparação entre personagens históricos.
Quando Lula foi preso, em abril de 2018, o PT havia governado o Brasil por quase 14 anos. Ainda controlava cinco governos estaduais, tinha nove senadores e aproximadamente 60 deputados federais.
Mais interessante: sete dos onze ministros do STF haviam sido indicados por Lula ou Dilma. Dos seis ministros que negaram o habeas corpus que poderia evitar sua prisão, cinco tinham sido indicados por governos petistas.
Isso não significa que fossem juízes subordinados ao PT. Significa que a história é consideravelmente mais complexa do que a imagem de um líder abandonado por todos e que decidiu sacrificar-se por uma causa.
Lula também não se apresentou imediatamente à Justiça. A ordem estabelecia sua apresentação até 17h de 6 de abril. Ele se entregou somente na noite do dia 7, depois de negociações e de um ato político no Sindicato dos Metalúrgicos.
Na prisão, permaneceu numa sala especial da Polícia Federal, separada dos demais presos, com televisão, banheiro privativo e chuveiro quente. Recebia advogados e visitas autorizadas. Não era um estabelecimento prisional comum.
Posteriormente, suas condenações foram anuladas pelo STF, que também reconheceu a parcialidade de Sérgio Moro no caso do tríplex. Esse fato é indispensável para compreender sua trajetória judicial.
Mas comparar tudo isso aos 27 anos de prisão de Nelson Mandela, numa África do Sul governada pelo apartheid, mistura contextos históricos e sistemas políticos profundamente distintos.
Quanto à família Bolsonaro, é perfeitamente possível criticar decisões de seus integrantes. O que não me parece razoável é tentar medir compromisso político simplesmente pela disposição de alguém para ser preso.
Uma liderança pode agir por convicção, estratégia, prudência ou autopreservação. Para distinguir essas possibilidades, precisamos examinar circunstâncias, riscos, alternativas e consequências.
A política não cabe numa comparação moral de duas frases, por mais bonita que ela pareça numa postagem.
E uma análise séria começa justamente quando abandonamos a tentação de transformar nossos personagens preferidos em heróis de romance e seus adversários em vilões obrigatórios.