É estranho alguém ter feito o Seminário de Filosofia e afirmar que o professor era um "bruxo" que "enfeitiçava com as palavras", mesmo em tom metafórico. Afinal, ele passou o curso inteiro denunciando com intensidade essa tendência, que remonta a Hegel, nas filosofias modernas, chegando a expor e ensinar o método como contraexemplo de conduta filosófica para que os alunos soubessem reconhecê-lo e rejeitá-lo. O que se confunde com "bruxaria" é, na verdade, apenas o apelo irresistível de uma alma sincera e genuinamente voltada para a verdade — e cada um de seus alunos sabe disso.
Agora, acerca de seus herdeiros, eu concordo, mas acrescentarei o seguinte: o professor Olavo era uma mente brilhante de certo gênio filosófico (basta ver a sua redescoberta solitária do ilm al-huduri e a enantiomorfia gnosiontológica a partir dos discursos aristotélicos), mas não era um gênio da estatura de um Leibniz ou Platão. Ora, se Mário Ferreira dos Santos, que mais se aproxima destes, não produziu um herdeiro à altura (embora alguns digam que o próprio Olavo o seria), e se nem mesmo Platão pôde produzir um grande herdeiro além de Aristóteles, é natural que Olavo produzisse uma horda de intelectualoides papagueadores e deturpadores. Afinal de contas, quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur. Qualquer empreitada filosófica de alto nível, quando lançada sobre um meio cultural degradado e sem preparo moral, recai numa "cristalização precoce" e monstruosa.
A proliferação dos fanáticos, portanto, não é necessariamente fruto do ensino do professor, que não se cansava de alertar contra a militância, o fingimento e a busca por grupos, mas sim da incapacidade da matéria bruta brasileira de assimilar a dimensão real do que estava sendo ensinado. Ele buscou ao máximo formar grandes mentes filosóficas, mas a matéria bruta atual é praticamente um caput mortuum. Se, eventualmente, surgir um grande filósofo para herdar a investigação olaviana ou ferreiriana neste país, estando à altura destes, será um milagre tão grande quanto a existência do Mário e do próprio Olavo.
O Olavo era, de fato, um bruxo, não no sentido de fazer mandinga e botar na encruzilhada, mas no de enfeitiçar com palavras, unir esotérico e exotérico em formas linguísticas, mover hordas de pessoas e modular seus afetos com uma língua que cortava o vento. Enquanto ele estava vivo, ninguém podia vencê-lo. Era o melhor. Debulhou todos os seus opositores e instalou nas pessoas uma nova forma de ver a vida, mais, uma nova forma de sentir a vida, que produziu tantas maravilhas - o florescimento de um catolicismo verdadeiro, o nascimento de um interesse intelectual genuíno por parte dos jovens, a elevação da inteligência e da personalidade de tantas pessoas, o reavivamento do amor ao Brasil etc - quanto desgraças - lunáticos de toda sorte, movimentos políticos deletérios, crescimento do sedevacantismo, divisões e inimizades pessoas que bem poderia não ter existido.