Fundamentalmente, anarcocapitalismo não se opõe a estruturas de governança ou de defesa.
Esse é um dos motivos pelos quais os anarcocomunistas geralmente perdem a cabeça e afirmam que ancap não é “anarquismo de verdade.”
Num mundo anarcocapitalista, é perfeitamente possível que você tenha, digamos, uma nação democrática com um exército tradicional, uma que segue princípios socialistas-marxistas, e assim por diante. A única constante é que não pode haver violação do PNA — algo que praticamente todos os países existentes hoje em dia violam porque eles foram estabelecidos com base na força, não na aquisição legítima de propriedade.
Idealmente, o mundo se fragmentaria em milhares de micronações, de maneira que haveria competitividade entre elas e, caso alguém estivesse insatisfeito com o seu governo, poderia se realocar com relativa facilidade, quase como mudar de condomínio.
Eu particularmente gosto de imaginar uma micronação estabelecida como uma empresa tradicional, criada a partir do financiamento de investidores, por meio da compra de ações. Essas ações permitiram o voto em pessoas para compôr um Conselho de Administração que, por sua vez, elegeria um Presidente.
O Presidente do Conselho de Administração seria o chefe de governo. Já o “CEO” seria o chefe de estado, com um porém: eu gosto bastante da ideia introduzida pelo Orwell em “1984”, que dá a entender que o “Grande Irmão” não é uma pessoa real, mas sim um símbolo criado pelo Partido. Por muitos motivos, penso que seria excelente se o posto de chefe de estado fosse ocupado por uma figura fictícia, preferencialmente em formato de anime girl com um modelo em estilo Live2D.
Há uma diferença, claro: “1984” é uma distopia e o “Grande Irmão” é uma das formas de enganar a população para mantê-la sob controle. Logicamente, não proponho que a micronação faça uso desse tipo de método; no caso específico da chefe de estado, a ficcionalidade seria óbvia por tratar-se de uma figura desenhada de maneira estilizada, e não de uma imagem humana realista. Além disso, o governo estaria contratualmente obrigado a seguir princípios de transparência e de honestidade com seus residentes e com seus investidores; e, portanto, haveria de ter uma auditoria externa independente com relatório público, feita por uma empresa de auditoria (como, por exemplo, EY, PwC, Deloitte, ou KPMG).
No âmbito da defesa, a micronação contrataria empresas militares privadas (PMCs) conforme a necessidade. Essas PMCs funcionariam paralelamente como agências de produção de conteúdo, e competiriam entre si em confrontos permanentes simulados em zonas designadas para esse fim (digamos, áreas oceânicas delimitadas), majoritariamente com drones e outros sistemas não tripulados, e com transmissões ao vivo.
Esses sistemas militares seriam majoritariamente comandados por streamers, incluindo VTubers, em transmissões monetizadas como qualquer outra live, incluindo assinaturas, superchats, etc.
Haveria extrema facilidade para registrar-se como “PMC” e participar dos confrontos simulados e, portanto, presume-se que haveria uma enorme quantidade de criadores de conteúdo individuais, bem como pequenas equipes de hobbyistas, participando de maneira esportiva, da mesma forma que há, hoje em dia, equipes de airsoft, competições de batalhas de robôs, e assim por diante.
Dessa forma, mesmo as maiores PMCs são forçadas a inovar constantemente, já que os seus mecanismos de defesa estão sempre sendo testados pelos demais, e inclusive por pessoas e equipes independentes.
Mesmo os pequenos participantes mais promissores poderiam também ser contratados ou adquiridos por uma PMC maior, com os conflitos simulados servindo como um funil de talentos.
E a existência desses independentes também implica que capacidades de defesa, os equipamentos, o conhecimento técnico e a experiência prática ficariam naturalmente distribuídas dentre a população, mitigando a concentração de poderio militar em grandes PMCs.
Naturalmente, as perdas financeiras em conflitos simulados seriam financiados pelo público que acompanha tais conflitos como entretenimento (a monetização por assinaturas, superchats, e outras vias).
Esses conflitos, claro, também funcionariam como mecanismo de seleção para contratos governamentais, uma vez que o Conselho Administrativo poderia, por meio dos registros e das transmissões ao vivo, fazer uma avaliação e contratar aquelas PMCs com melhor desempenho comprovado em situações de combate.
O que impediria essa micronação de ser anexada por um Estado é, obviamente, o custo. Essas forças de defesa testadas continuamente em combate dificilmente seriam um alvo fácil. Soma-se a isso a possibilidade de contratos de defesa mútua entre micronações vizinhas, e também o custo em relação à opinião pública (pense na repercussão da ação de um Estado, já havendo iniciado a agressão contra uma micronação pacífica, conduzindo uma operação para assassinar ou capturar um streamer conhecido no mundo inteiro).
O problema de bilionários tornando-se senhores de guerra enfrenta vários obstáculos, inclusive o fato de que uma única pessoas, ou um pequeno grupo de pessoas, formando um cartel de PMCs com o objetivo de conduzir um golpe contra o Conselho estaria violando o PNA, e haveria incentivo, inclusive ideológico (especialmente para os independentes) de usar a força para combater o agressor. Haveria, também, incentivo para que outras micronações vizinhas auxiliassem no combate, tendo em vista que elas, também, poderiam vir a tornar-se vítima do agressor caso o Conselho legítimo viesse a cair.
Aos anarco-capitalistas:
O que impediria um território anarco-capitalista de ser anexado por um Estado?
O que impediria facções de formarem novos Estados no Brasil?
O que impediria bilionários de se tornarem senhores da guerra, criarem exércitos e se expandir, criando Estados?