I. Mas afinal quanto vale o negócio da imigração em Portugal?
Há um detalhe que o discurso oficial raramente admite em voz alta — em Portugal, a imigração deixou de ser um fenómeno pontual e passou a ser uma indústria de milhões, com orçamento, organigrama, relatórios anuais e uma vocação quase milagrosa para descobrir, a posteriori, que afinal temos mais imigrantes do que se pensava.
Entre 2017 e 2025, a população estrangeira residente passou de cerca de 422 mil para 1.585.854. Quase quadruplicou. Os brasileiros continuam a ser cerca de um terço. Depois vêm angolanos, indianos, ucranianos, cabo-verdianos, nepaleses e bengalis. O país acordou um dia e descobriu que 14% da população já não nasceu em Portugal.
O interessante é que parte deste ‘crescimento’ não foi só imigrantes a entrar. Foram pessoas que já cá estavam e que, oportunamente, as estatísticas oficiais só apanharam quando a AIMA começou a varrer gavetas, pendências e manifestações de interesse. Em 2023, o número foi revisto em alta em mais de 260 mil pessoas.
Vamos a valores. Não existe um número limpo, único e honesto do tipo ‘nos últimos 15 anos o Estado português gastou X milhões em imigração e refugiados’. Quem promete essa cifra redonda está a vender um engodo. O dinheiro encontra-se fatiado por dezenas de rubricas — orçamento da AIMA (e, antes, do ACM e do SEF), Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI), Segurança Social, SNS, educação, habitação, municípios, IEFP, centros de instalação temporária e protocolos com IPSS.
O que se consegue documentar, com fontes públicas:
— No Orçamento do Estado para 2026, o Governo reservou 91 milhões de euros para o programa ‘imigração regulada e humanista’: 74 milhões para regular, 16 milhões para ‘acolhimento e integração humanista’ e 1 milhão para ‘atração de talento’.
—O FAMI 2021-2027 atribuiu a Portugal uma envelope na ordem dos 64 a 75 milhões de euros de fundos europeus, com cofinanciamento nacional. No ciclo anterior, só entre 2016 e 2019 o Ministério da Administração Interna aprovou mais de 109 milhões em projetos FAMI e Fundo para a Segurança Interna.
— A Cruz Vermelha, só a título de exemplo, teve projetos FAMI com investimentos elegíveis de 2,4 milhões (resposta a requerentes de asilo) e quase 700 mil noutro programa de acolhimento. Não é ‘a Cruz Vermelha’, no singular, é uma fatia visível de uma rede muito maior.
— Em 2025 o Governo teve de puxar 30 milhões do Orçamento do Estado para centros de instalação temporária depois de perder o timing do PRR.
O resto — rendas, rendimentos sociais, escolas, urgências hospitalares, mediadores, CLAIMs —, está enterrado em contas de ministérios que não gostam de ser somados. Quem quiser o exercício completo tem de ir ao Relatório de Migrações e Asilo da AIMA, ao Observatório das Migrações, ao portal FAMI e às propostas de OE.
Ou seja, o dinheiro é muito, espalhado e difícil de somar, não é fácil seguir o rasto e chegar a um número redondo.
A seguir vamos analisar as dez maiores organização a trabalhar a questão da imigração.
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