Sim, a palavra alemã “Muselmann”, literalmente “muçulmano”, era usada no jargão dos campos nazistas. Mas não para designar os judeus como “muçulmanos”, muito menos para indicar que o antissemitismo nazista se dirigia aos “povos semitas” em geral, como
@FranceskAlbs sugere.
Em Auschwitz, Muselmann designava o prisioneiro reduzido pela fome, exaustão e violência a um estado extremo de debilidade física e apatia, geralmente próximo da morte. O próprio Museu de Auschwitz registra esse significado e ressalta que a origem exata do emprego da palavra permanece incerta.
Primo Levi descreve os Muselmänner em “É isto um homem?” como os “submersos” (sommersi). Ou seja, a massa de prisioneiros destruídos, debilitados e destinados à seleção e à morte.
Portanto, pegar a tradução literal de Muselmann e apresentá-la como se revelasse algo sobre quem era o alvo do antissemitismo nazista é retirar uma palavra do jargão concentracionário de seu contexto histórico e atribuir-lhe um significado que ela não tinha.
O termo existiu. O sentido sugerido por Albanese, não. E a distorção histórica que ela opera não é por acaso. É parte de um projeto político de desjudaização da Shoá e de diluição do antissemitismo, deslocando os judeus do centro de sua própria história de perseguição e extermínio.
Francesca Albanese diz que judeus em campos de extermínio nazistas “eram chamados de muçulmanos”.
A realidade, segundo historiador Johann Chapoutot:
“Considerando o cristianismo 'a maior peste que poderíamos nos atingir ao longo da história', Himmler o proíbe na SS, vetando nas unidades da Waffen-SS a presença de capelães protestantes ou católicos. Para o Reichsführer-SS, não se trata de fazer profissão de ateísmo — pois ele se declara gottgläubig —, mas de erradicar uma infecção cristã que tornou os homens fracos, pois compassivos e passivos, resignados a obedecer aos planos celestiais.
[…] Himmler não se opõe a toda religião, mas àquelas que desarmam os homens. Prova disto é que autoriza, em 1943, a presença de capelães não cristãos nas novas unidades — depois divisões — constituídas no interior da Waffen-SS: a divisão Handschar e depois a divisão Skanderberg, integradas por voluntários muçulmanos da Bósnia, têm seus imãs, formados por Amin al-Husseini, grande mufti de Jerusalém e amigo próximo do Reich. Segundo Himmler, o Islã tem sobre o cristianismo a grande vantagem (entre outras) de estimular os homens ao combate e lhes permitir morrer felizes.
Em sua vontade de erradicar um cristianismo que desnatura, Himmler está com Hitler, que nas conversas privadas não se cansa de atacar a tradição normative judeo-cristã, não apenas por sua origem (judaica), mas também por suas consequências (a desvirilização da raça nórdica).”
CHAPOUTOT, Johann. La révolution culturelle nazie. Paris: Éditions Gallimard, 2017.
Albanese é uma antissemita contumaz que distorce e instrumentaliza a memória do Holocausto. Mesmo ao falar dos campos de extermínio nazistas, mostra-se incapaz de nomear o ódio aos judeus sem apagar os próprios judeus da narrativa.