Flávio Bolsonaro esperava que, até a noite de domingo, as pessoas já o estivessem chamando de próximo presidente do Brasil.
Em vez disso, a decisão do político de extrema-direita de fugir para os EUA após perder a eleição e – por 58 minutos – se autoproclamar “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” o transformou em motivo de chacota, com jornais e comentaristas brasileiros despejando uma enxurrada de adjetivos depreciativos sobre o candidato derrotado.
“Se é que serviu para alguma coisa, a insensatez de Flávio libertou a direita democrática de uma família de golpistas que, por muito tempo, a manteve refém de sua imprudência e desprezo irremediável pelo Brasil”, bradou na sexta-feira o jornal conservador Estado de São Paulo.
Bolsonaro fugiu para Miami na noite de terça-feira, 48 horas depois de ser derrotado por seu adversário de esquerda, o presidente em exercício Luiz Inácio Lula da Silva, por 4,4 milhões de votos. A vitória de Lula foi reconhecida por líderes de direita de todo o mundo, incluindo Nayib Bukele, de El Salvador, e Giorgia Meloni, da Itália, além do próprio partido de Bolsonaro e de muitos aliados importantes.
Mas na quarta-feira, após desembarcar nos EUA, Bolsonaro publicou uma carta extravagante – supostamente produzida com a ajuda do ChatGPT – na qual se declarou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e fez alegações falsas sobre fraude eleitoral.
Talvez o mais bizarro seja que ele afirmou que continuaria a liderar a oposição brasileira do exterior, comparando-se a Charles de Gaulle, que na década de 1940 liderou um governo francês no exílio contra os nazistas a partir de Londres, e ao herói da independência cubana do século XIX, José Martí, que desafiou o império espanhol a partir de Nova York.
“Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentaram. A história os chamou de outra coisa”, disse Bolsonaro, comparando-se também à ganhadora do Prêmio Nobel da Venezuela, María Corina Machado, e a Rui Barbosa, político brasileiro que se exilou em Londres no final do século XIX após desafiar um presidente autoritário conhecido como “o Marechal de Ferro”.
Pouco menos de uma hora após a primeira publicação da proclamação de Bolsonaro nas redes sociais, uma versão corrigida foi divulgada, alterando seu status declarado para “líder do Brasil” – supostamente após ele ter sido repreendido por funcionários do governo Trump, que buscavam evitar um rompimento diplomático total com os líderes reais do Brasil.
A carta retificada também atualizou o brasão brasileiro desatualizado, que havia sido usado erroneamente no cabeçalho da primeira versão, referindo-se aos “Estados Unidos do Brasil” – nome que o país sul-americano não usa desde 1967.
A fuga de Bolsonaro – e sua breve, porém falsa, alegação de ser “presidente eleito” de uma das maiores democracias do mundo – provocou uma onda de reprovação e ridículo.
“[Esta carta] parece ter sido escrita por um imbecil, um lunático”, disse Flávia Oliveira, uma proeminente comentarista política, à rede GloboNews.
Os editorialistas do Estado de São Paulo disseram: “A carta de Flávio não merece a tinta deste jornal, mas não há como ignorar o constrangimento”, antes de criticarem duramente um homem que chamaram de “um vigarista da pior espécie”. (The Guardian)