Nenhuma cena eleitoral me entristeceu tanto quanto esta. Talvez só a morte de Tancredo Neves. Eu tinha 12 anos e chorei, mesmo sem entender direito o que estava acontecendo.
Ontem, 29 de outubro, escrevi a um amigo de grande relevância no Rio de Janeiro: não é desistência. Desistir seria parar de lutar, e eu não vou parar. O que penso, pela primeira vez na vida, é em deixar de votar. Em abandonar um sistema eleitoral que deixou de me representar.
Em 2018, 2022 e 2026, tivemos de enfrentar ao mesmo tempo o adversário, a imprensa e o próprio Judiciário.
Vimos o 8 de janeiro destruir a vida de milhares de inocentes, em julgamentos em massa, sem individualização de condutas. E agora, quando muitos decidem se afastar de petistas que passaram anos nos chamando de fascistas, nazistas e golpistas, já se abrem investigações para perseguir e punir quem ousou demonstrar indignação.
Demitir alguém por opção política é crime? É. Montar listas de empresas que apoiaram o adversário é crime? É. Mas em janeiro de 2023, em Davos, o ministro da Fazenda Fernando Haddad disse que muita gente tinha deixado de consumir produtos de empresas engajadas com o governo Bolsonaro. E completou que ele próprio não comprava "nem um palito de fósforo" de empresa sem compromisso com as suas questões. Nada aconteceu. Hoje, o PT pede à PF e à PGR que investiguem boicotes contra petistas.
E o resto? Abuso do poder econômico, com um pacote de bondades de quase R$ 300 bilhões no ano da eleição. Fake news e campanha do medo, a ponto de o próprio TSE mandar tirar do ar vídeos da campanha de Lula e posts da primeira-dama. Palácios usados para gravar propaganda, o mesmo que foi proibido a Bolsonaro em 2022. Tudo o que Jair não pôde fazer, Lula fez com total liberdade. Quando muito, um vídeo tirado do ar. Punição, nenhuma.
Como naturalizar que um candidato seja intimado a entregar os passaportes na mesma noite em que sua derrota é anunciada? Todos já vimos esse filme: com Jair, foram passaporte, tornozeleira, prisão domiciliar e, por fim, a cadeia.
Flávio não esperou o fim do roteiro. Enquanto PF, Moraes e imprensa perseguiam um jatinho parado em Puerto Iguazú e anúncios de que ele já estava nos EUA, ele ainda nem tinha deixado o Brasil. Cruzou a fronteira às 22h50 do dia 27, pela ponte que leva o nome de Tancredo Neves, com os vistos da família já confirmados por Washington. Uma retirada espetacular. Washington e Buenos Aires não vão admitir oficialmente o que fizeram, nem precisam.
A imprensa correu para chamar de fuga. Mas não existe mandado de prisão contra ele. Quem sai para não ser preso injustamente não é fugitivo, é exilado. A história do Brasil está cheia deles, e muitos acabaram ministros de Lula.
Na minha perspectiva, o Brasil vive hoje a fase de um Estado opressor. E não sou só eu que digo: o Washington Post e o Wall Street Journal, dois dos maiores jornais dos EUA, publicaram editoriais sobre a perseguição política no Brasil. Para o Post, um candidato derrotado não confiar na Justiça do próprio país é "uma acusação contra a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental".
Ver esta senhora queimar o próprio título de eleitor é ver uma brasileira que deixou de se sentir representada pelo seu país. É muito triste, uma vergonha para o
@TSEjusbr e um sinal de alerta: a abstenção tende a crescer como nunca antes na nossa história.
Foi assim na Venezuela: quando o cidadão abandona as urnas, quem se fortalece é justamente o sistema que o oprime.
Esse é o perigo que muitos ainda não perceberam.
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